Exprobrações de um Boêmio

[O Céu e o Inferno – Espíritos Sofredores]

(Bordéus, 19 de abril de 1862)

boêmia eis me aqui“Homens, meus irmãos, eu vivi só para mim e agora expio e sofro!

Conceda-vos Deus a graça de evitardes os espinhos que ora me laceram.

Prossegui na senda larga do Senhor e orai por mim, pois abusei dos favores que Deus faculta às suas criaturas!

“Quem sacrifica aos instintos brutos a inteligência e os bons sentimentos que Deus lhe dá, assemelha-se ao animal que muitas vezes se maltrata.

O homem deve utilizar-se sobriamente dos bens de que é depositário, habituando-se a visar a eternidade que o espera, abrindo mão, por conseqüência, dos gozos materiais.

A sua alimentação deve ter por exclusivo fim a vitalidade; o luxo deve apenas restringir-se às necessidades da sua posição; os gostos, os pendores, mesmo os mais naturais, devem obedecer ao mais são raciocínio; sem o que, ele se materializa em vez de se purificar.

As paixões humanas são estreitos grilhões que se enroscam na carne e, assim, não lhes deis abrigo.

Vós não sabeis o seu preço, quando regressamos à pátria!
As paixões humanas vos despem antes mesmo de vos deixarem, de modo a chegardes nus, completamente nus, ante o Senhor.

Ah! cobri-vos de boas obras que vos ajudem a franquear o Espaço entre vós e a eternidade. Manto brilhante, elas escondem as vossas torpezas humanas.

Envolvei-vos na caridade e no amor — vestes divinas que duram eternamente.”

Instruções do guia do médium.Este Espírito está num bom caminho, porquanto, além do arrependimento, aduz conselhos tendentes a evitar os perigos da senda por ele trilhada.

O caminhoReconhecer os erros é já um mérito e um passo efetivo para o bem: também por isso, a sua situação, sem ser venturosa, deixa de ser a de um Espírito infeliz.

Arrependendo-se, resta-lhe a reparação de uma outra existência.

Mas, antes de lá chegar, sabeis qual a existência desses homens de vida sensual que não deram ao Espírito outra atividade além da invenção de novos prazeres?

A influência da matéria segue-os além-túmulo, sem que a morte lhes ponha termo aos apetites que a sua vista, tão limitada como quando na Terra, procura em vão os meios de os saciar. Por não terem nunca procurado alimento espiritual, a alma erra no vácuo, sem norte, sem esperança, presa dessa ansiedade de quem não tem diante de si mais que um deserto sem limites. A inexistência das lucubrações espirituais acarreta naturalmente a nulidade do trabalho espiritual depois da morte; e porque não lhe restem meios de saciar o corpo, nada restará para satisfazer o Espírito.

Daí, um tédio mortal cujo termo não prevêem e ao qual prefeririam o nada. Mas o nada não existe… Puderam matar o corpo, mas não podem aniquilar o Espírito. Importa pois que vivam nessas torturas morais, até que, vencidos pelo cansaço, se decidam a volver os olhos para Deus.

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