Jobard – 11 perguntas

[O Céu e o Inferno – Espíritos Felizes]

[11 Perguntas]

Evocando1. Quando estáveis na Terra, recomendastes-nos para vos evocarmos, e ora o fazemos, não só para satisfazer aquele desejo, como para testemunhar-vos ainda uma vez a nossa sincera simpatia, instruindo-nos ao mesmo tempo, visto que ninguém melhor que vós pode dar-nos esclarecimentos precisos sobre esse mundo em que hoje habitais. Dar-nos-emos por felizes se houverdes por bem responder às nossas perguntas.
— R. Presentemente o que mais se impõe é a vossa instrução. Quanto à vossa simpatia, entrevejo-a e tenho a prova dela tão-só pelo que ouço, o que é já um enorme progresso.

2. Para fixarmos idéias e não divagar, principiamos por perguntar em que lugar vos achais aqui, e como vos veríamos se tal coisa nos fosse facultada?
— R. Estou junto do médium, com a aparência do mesmo Jobard que se sentava à vossa mesa, visto que os vossos olhos mortais, ainda vendados, não podem ver os Espíritos senão sob a sua forma mortal.

3. Podereis tornar-vos visível? No caso contrário, qual a dificuldade?
— R. A disposição que vos diz respeito é que é toda pessoal. Um médium vidente ver-me-ia, e os outros não.

4. O vosso lugar aqui é o mesmo de quando assistíeis encarnado às nossas sessões e que vos reservamos? Aqueles, pois, que em tais condições vos viram, poderão supor que aí estais tal qual éreis então, visto que aí não estais com o corpo material de outrora, estais no entanto com o corpo fluídico de agora e com a mesma forma. Se vos não vemos com os olhos do corpo, vemos-vos com o pensamento; se não podeis comunicar pela palavra, podeis pela escrita, com auxílio de um médium; assim as nossas relações de forma alguma se romperam com a vossa morte e podemos entretê-las tão fácil e completamente como outrora. É assim precisamente que se passam as coisas?
— R. Sim, e há muito que o sabeis. Ocuparei este lugar muitas vezes, e mesmo sem o saberdes, uma vez que o meu Espírito habitará entre vós.

Chamamos a atenção para esta última frase: o meu Espírito habitará entre vós, que, neste caso, não é uma simples figura, porém, realidade. Pelo conhecimento que o Espiritismo nos dá sobre a natureza dos Espíritos, sabemos que qualquer um pode achar-se entre nós, não só em pensamento, mas pessoalmente, com seu corpo etéreo, que o torna uma individualidade distinta. Um Espírito tanto pode, conseguintemente, habitar entre nós depois de morto como quando vivo, ou, por outra, melhor ainda depois de morto, uma vez que pode ir e vir livre e voluntariamente.
Deste modo temos lima multidão de comensais invisíveis, indiferentes uns, outros atraídos por afeição. É a estes últimos que se aplica esta frase: Eles habitam entre nós, que se poderá interpretar assim: Eles nos assistem, inspiram e protegem.

5. Não há muito que encarnado vos sentáveis nesse mesmo lugar. As condições em que ora o fazeis parecer-vos-ão estranhas? Qual o efeito da mudança de estado?
— R. De modo algum se me afiguram estranhas as condições, porque o meu Espírito desencarnado goza de lucidez perfeita para não deixar irresolutas quaisquer questões que encare.

6. Lembrai-vos de haver estado nas mesmas condições anteriormente à última existência? Experimentais qualquer mudança a este respeito comparando as situações presente e passada?
— R. Recordo-me das existências anteriores e sinto-me melhorado, por isso que me identifico com o que vejo, ao passo que, perturbado nas precedentes existências, só me apercebia das faltas terrenas.

7. Lembrai-vos da penúltima encarnação, da que precedeu a do Sr. Jobard?
— R. Se me lembro… Fui um operário mecânico acossado pela miséria e pelo desejo de aperfeiçoar a minha arte. Como Jobard, realizei os sonhos do pobre operário, e dou graças a Deus cuja bondade infinita fez germinar a planta, e cuja semente depositara em meu cérebro.

8. Já vos tendes comunicado em outra parte?
— R. Pouco me tenho comunicado. Em muitos lugares um Espírito tomou-me o nome; algumas vezes estava eu perto dele sem que pudesse comunicar-me diretamente. Tão recente é a minha morte que participo ainda de certas influências terrestres. É preciso que haja perfeita simpatia para poder exprimir o meu pensamento. Em breve operarei incondicionalmente, mas por enquanto, repito, não posso fazê-lo. Quando morre um homem um tanto conhecido, é chamado de todos os lados e inúmeros Espíritos se dão pressa de apossar-se da sua individualidade. Eis o que comigo se tem passado em muitos casos. Asseguro-vos que, logo após ao desprendimento, poucos Espíritos podem comunicar-se, mesmo por um médium predileto.

Erasto

Erasto

9. Vedes os Espíritos que aqui estão conosco?
R. — Vejo, principalmente Lázaro e Erasto; depois, mais afastado, o Espírito de Verdade pairando no espaço, depois, ainda, uma multidão de Espíritos que vos cercam, solícitos e benévolos. Sede felizes, amigos, pois benéficas influências vos disputam às garras do erro.

10. Quando encarnado compartilháveis da opinião emitida sobre a formação da Terra pela incrustação de quatro planetas que se teriam unido: — Sois ainda da mesma opinião?
— R. É um erro. As novas descobertas geológicas provam as convulsões da Terra e sua formação gradual e sucessiva. A Terra, como os outros planetas, teve sua vida própria, e Deus não precisou lançar mão dessa grande desordem que seria a agregação de planetas. A água e o fogo são os únicos elementos orgânicos da Terra.

11. Admitíeis também que os homens pudessem cair num estado cataléptico por tempo ilimitado, e que o gênero humano tivesse assim aparecido na Terra?
— R. Pura ilusão da minha mente, que ultrapassava sempre o seu fim. A catalepsia pode ser longa, porém, não indeterminada: tradições, legendas exageradas pela imaginação oriental. Meus amigos, muito tenho sofrido já com as ilusões que alimentaram o meu Espírito; não vos iludais a tal respeito. Muito aprendi e posso hoje dizer-vos que a minha inteligência, apta para assimilar diversos e vastos estudos, guardará no entanto, de sua última encarnação, o pendor para o maravilhoso e místico, hauridos nas imaginações populares. Ainda agora, pouco me tenho ocupado das questões puramente intelectuais, no sentido em que as julgais. E como poderia eu fazê-lo, deslumbrado e aturdido pelo maravilhoso espetáculo que me cerca? O vínculo do Espiritismo, que vós homens não podeis compreender, só ele pode atrair-me a esta terra que abandono — não direi com alegria, por ser uma impiedade — mas com o profundo reconhecimento da libertação.

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