Sanson – Texto III

[O Céu e o Inferno – Espíritos Felizes]

(Texto III)

Presenças9. Debaixo de que aspecto se vos apresentaram os Espíritos? sob a forma humana?
— R. Sim, meu caro amigo; os Espíritos nos ensinam, aí na Terra, que conservam no outro mundo a mesma forma que lhes serviu de envoltório, e é a verdade.
Mas, que diferença entre a máquina informe, que penosamente aí se arrasta com seu cortejo de misérias, e a fluidez maravilhosa do corpo espiritual!
A fealdade não mais existe, porque os traços perderam a dureza de expressão que forma o caráter distintivo da raça humana.
Deus beatificou esses corpos graciosos que se movem com todas as elegâncias; a linguagem tem modulações intraduzíveis para vós e o olhar o alcance de uma estrela! Conjecturai sobre o que Deus pode produzir na sua Onipotência, Ele, o arquiteto dos arquitetos, e tereis feito uma fraca ideia da forma dos Espíritos.

10. Quanto a vós, como vedes? Reconheceis em vós uma forma limitada, circunscrita, ainda que imponderável? Sentis em vós mesmo uma cabeça, tronco, pernas e braços?
— R. O Espírito, conservando a sua forma humana idealizada, divinizada, pode, sem contradição, possuir todos os membros de que falais.  Sinto perfeitamente as minhas mãos com os dedos, pois podemos, à vontade, aparecer-vos e apertar-vos as mãos.
Estou junto dos meus amigos e aperto-lhes as mãos sem que disso se apercebam.
Quanto à nossa fluidez e graças a ela, podemos estar em toda parte sem interceptar o espaço ou produzir quaisquer sensações, se assim o desejamos.
Neste momento, entre as vossas mãos cruzadas tenho as minhas.
Digo-vos, por exemplo, que vos amo; porém, o meu corpo não ocupa qualquer espaço, a luz atravessa-o e o que chamaríeis — milagre — se acaso vísseis, não passa para o Espírito de ação contínua de todos os instantes.
A vista dos Espíritos não se pode comparar à humana, uma vez que também seu corpo não tem quaisquer semelhanças reais; para eles tudo se transforma na essência, como no conjunto. Repito-vos que o Espírito tem uma perspicácia divina que abrange tudo, podendo adivinhar até o pensamento alheio; também pode oportunamente tomar a forma mais própria para tornar-se conhecido. Na realidade, porém, o Espírito que tem terminado a provação prefere a forma que o conduziu para junto de Deus.

11. Os Espíritos não têm sexo; mas como há poucos dias éreis um homem, desejamos saber se no vosso novo estado tendes mais da natureza masculina ou da feminina? E o mesmo que se dá convosco poder-se-á aplicar ao Espírito de longo tempo desencarnado?
— R. Não temos motivo para ser de natureza masculina ou feminina: — os Espíritos não se reproduzem. Deus criou-os como quis, e tendo segundo seus maravilhosos desígnios de dar-lhes a encarnação, sobre a Terra, subordinou-os aí às leis de reprodução das espécies, caracterizada pela junção dos sexos. Mas vós deveis senti-lo, sem mais explicação, que os Espíritos não podem ter sexo.

Sempre disseram que os Espíritos não têm sexo, sendo este apenas necessário à reprodução dos corpos. De fato, não se reproduzindo, o sexo ser-lhes-ia inútil. A nossa pergunta não visava confirmar o fato, mas saber, visto que o Sr. Sanson desencarnara recentemente, as impressões que guardava do seu estado terreno. Os Espíritos puros compreendem perfeitamente a sua natureza, porém, entre os inferiores, não desmaterializados, muitos há que se acreditam encarnados sobre a Terra, com as mesmas paixões e desejos. Assim, pensam eles que são ainda os mesmos que foram, isto é, homem ou mulher, havendo quem por esta razão suponha ter realmente um sexo. As contradições a tal respeito são oriundas da graduação de adiantamento dos Espíritos que se manifestam, sendo o erro menos deles que de quem os interroga sem se dar ao trabalho de aprofundar as questões.

Espiritos12. Que tal se vos afigura a sessão? O seu aspecto é o mesmo de quando éreis vivo? As pessoas guardam para vós a mesma aparência? Será tudo tão claro e distinto como outrora?
— R. Muito mais claro, porquanto posso ler o pensamento de todos vós, sentindo-me igualmente feliz pela benéfica impressão que me causa a boa vontade de todos os Espíritos congregados. Desejo que o mesmo critério se faça sentir não só em Paris, mas na França inteira, onde grupos há que se desligam, invejando-se reciprocamente, dominados por Espíritos turbulentos que se comprazem na discórdia, quando o Espiritismo deve incutir o esquecimento completo e absoluto do “eu”.

13. Dissestes poder ler em nosso pensamento: — podeis explicar-nos como se opera essa transmissão?
— R. Não é fácil. Para vos descrever, explicando-o, este prodígio extraordinário da nossa visão, preciso fora franquear-vos todo um arsenal de agentes novos, com o que, aliás, ficaríeis na mesma, por terdes as vossas faculdades limitadas pela matéria.
Paciência… Tornai-vos bons e tudo conseguireis.
Atualmente só podeis ter o que Deus vos concede, mas com a esperança de progredir continuamente; mais tarde sereis como nós.
Procurai no entanto morrer em graça para muito saberdes.
A curiosidade, estímulo do homem que pensa, conduzir-vos-á tranquilamente para a morte, reservando-vos a satisfação de todos os desejos passados, presentes e futuros. Enquanto esperais, direi para responder, ainda que mal, à vossa pergunta: o ar que respirais, impalpável como nós, estereotipa por assim dizer o vosso pensamento; o sopro que exalais é, mais ou menos, a página escrita dos vossos pensamentos lidos e comentados pelos Espíritos que constantemente se encontram convosco, mensageiros de uma telegrafia divina que tudo transmite e grava.

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